Acupuntura


A acupuntura ou acupunctura é um ramo da Medicina Tradicional Chinesa e um método de tratamento considerado complementar de acordo com a nova terminologia da OMS – Organização Mundial da Saúde.

A acupuntura consiste na aplicação de agulhas, em pontos definidos do corpo, chamados de “Pontos de Acupuntura” ou “Acupontos”, para obter efeito terapêutico em diversas condições.

Atribui-se o nome “Acupuntura” a um jesuíta europeu que retornando da China, no século XVII, adaptou os termos chineses “Zhen” e “Jiu”, juntando as palavras latinas “Acum” (agulha) e “Punctum” (picada ou punção), como visto.

A tradução literal do termo chinês, no entanto, é bem diferente. O correto seria Zhen (agulha) e Jiu moxa ou seja “longo tempo de aplicação do fogo”.

A tradução causa a impressão de que o terapeuta só trabalha com agulhas. Os pontos e meridianos também podem ser estimulados por outros tipos de técnicas. Na verdade, os pontos de Acupuntura podem ser estimulados por: agulhas, dedos (acupressão) caracterizando distintas variantes da técnica de massagem chinesa (tui na, shiatsu (japonês), do-in); stiper (do inglês Stimulation and Permanency – Estimulação Permanente); ventosa (embora seja uma aplicação em diversos pontos simultâneos) ou pelo aquecimento promovido por moxa ou seja, longo tempo de aplicação do fogo”, – um bastão de artemísia em brasa, que é aproximado da pele para aquecer o ponto de acupuntura. Há, também, o método de estimulação por laser, ainda em estudos.

Microsistemas de acupuntura

Além das referidas técnicas de estimulação acima descritas, aonde pode ser incluída a acupuntura com a eletroestimulação, ou eletroacupuntura, explorada com diversas perspectivas teórico – clínicas, a exemplo o sistema japonês Ryodoraku (ryo=boa, do=(electro) condução, raku=linha) desenvolvida pelo Dr. Yoshio Nakatani explorando a relação entre a eletrocondutividade da pele e os pontos dos diversos meridianos.

No âmbito da medicina chinesa moderna, com inspiração em sua medicina tradicional, vem se desenvolvendo técnicas explorando as possibilidades terapêuticas de regiões específicas do corpo como o pavilhão auricular (orelha), as mãos e o crânio.

Dentre essas a mais antiga e difundida é a auriculopuntura ou auriculoterapia já registrado no Neijing (500-300 a,C.) Nessa técnica, talvez por sua antiguidade, já se distinguem diversas escolas: a chinesa clássica, a escola francesa inaugurada pelo neurocirurgião francês Paul Nogier em 1957 e uma recente escola brasileira (IBRAHO). O microssistema de acupuntura dos pontos das mãos – Korio Soo-Ji-Chim (Acupuntura de Mão, Coreana) foi desenvolvida por Tae Woo Yoo em 1975 explora uma região ricamente inervada, com pontos de conexão da maioria dos meridianos com resultados publicados como positivos para o controle da dor. A craniopuntura ou acupuntura craniana tem escolas japonesas e chinesas, segundo Ferreira possui trabalhos publicados desde 1930 (Huang Xuelong), explora as concepções chinesas sobre o cérebro (o mar de medula) os pontos da acupuntura tradicional e as modernas concepções neurofisiológica da atividade cerebral possuindo especial indicação para patologias conhecidas no ocidente como doenças neurológicas.

História da acupuntura

A história da acupuntura confunde-se com a história da medicina na China. Seus primórdios remontam à pré-história chinesa. A linguagem escrita milenar permitiu a continuidade do conhecimento. Posteriormente, outros países orientais contribuíram para o desenvolvimento das técnicas de acupuntura. As notícias sobre acupuntura no ocidente chegaram com os primeiros exploradores europeus que visitaram o império Chinês, ainda na idade média.

Visão tradicional chinesa
Ciclo de geração dos cinco elementos: Fogo gera Terra, Terra gera Metal, Metal gera Água, Água gera Madeira, Madeira gera Fogo

A visão tradicional da medicina chinesa está profundamente ligada a teorias baseadas no Taoísmo, sobre a dualidade Yin/Yang, sobre meridianos e outros conceitos bastante “exóticos” para a ciência médica ocidental. Contudo, contribuições da Antropologia, mais especificamente da Antropologia Médica, vem facilitando o entendimento destes conceitos à luz da interpretação lógica das explicações mítico-religiosas compreendidas como sistemas etnomédicos capazes de dar respostas às demandas por cuidados de saúde de uma determinada população.

O Yin e o Yang são aspectos opostos de todo movimento no universo. É um conceito hoje considerado quântico que os médicos chineses antigos conseguiram adaptar para a medicina.No corpo do homem existe um equilíbrio que pode ser alterado por diversos tipos de influências, como alimentar, comportamental e muitas outras.

Existem muitas formas de diagnóstico na medicina tradicional chinesa. Algumas delas são a pulsação, a observação e aspectos da língua, a cor e aspectos da pele. Um médico chinês costuma dizer que não se deve olhar apenas o paciente, mas escutá-lo, tocá-lo, cheirá-lo, provar sua urina e conhecer as suas fezes.

Uma consulta baseada no modelo tradicional chinês pode levar de vários minutos a algumas horas. O terapeuta questiona vários aspectos da vida incluindo a infância, expressão das emoções, a alimentação, hábitos e costumes.

A natureza das explicações tradicionais da medicina chinesa não tornam essa prática essencialmente distinta de outros sistemas etno – médicos, exceto porém por sua notável semelhança com a medicina hipocrática – a quem se atribui a origem da moderna medicina cosmopolita. O estudo de sua história revela seu rompimento com algumas tradições “mágicas” e incorporação do conhecimento empírico proveniente de cuidadosas observações, consolidado no que vem sendo chamado do paradigma do Yin – Yang e dos 5 movimentos descrito nos livros clássicos para os orientais ou documentos etnológicos brutos para a antropologia estrutural. Entre os livros clássicos o mais conhecido é, sem dúvida o “Livro do Imperador Amarelo” cujo exemplar mais antigo foi encontrado em um túmulo da dinastia Han (Fu Weikang).

Mecanismos de ação da Acupuntura
Aplicação de agulhas de acupuntura.

Dentro do conhecimento atual de fisiologia, a Acupuntura é um método de estimulação neurológica em receptores específicos, com efeitos de modulação da atividade neurológica em três níveis – local, espinhal ou segmentar, e supra-espinhal ou suprasegmentar.

Já em 1921, Goulden concluiu sobre a participação do Sistema nervoso autônomo na Acupuntura, através dos nervos simpáticos, observando também que os pontos de Acupuntura possuem impedância menor entre si que os pontos próximos ou circunjacentes.

Chiang e Cols, em 1973, demonstraram que o efeito da Acupuntura é conduzido através dos nervos, ao constatarem que o estímulo acupuntural não surtia efeito quando aplicado em área bloqueada por anestésico local.

Chan, 1984, concluiu que muitos dos pontos de Acupuntura correspondem a locais de penetração das fibras nervosas na fáscia muscular, 309 pontos estão localizados sobre terminações nervosas e 286 pontos localizados sobre os principais vasos sanguíneos, rodeados pelos Nervi vasorum, a inervação própria dos vasos sanguíneos. Alguns pontos de Acupuntura correspondem aos pontos gatilhos (Trigger points, em inglês), que são pontos localizados na musculatura, sensíveis ao toque e que condicionam o surgimento de sintomas à distância, como dores de cabeça, por exemplo.

Em 1985, foi descoberto que a aplicação de agulhas de Acupuntura estimulava fibras nervosas específicas e que as sensações produzidas pelo estímulo por acupuntura correspondem àquelas experimentadas pelo estímulo das fibras nervosas do tipo A delta (A δ), como choque, sensação de peso ou parestesia.

A Acupuntura aplicada em áreas de pele acometidas por Neuralgia pós-herpética não se mostrou eficaz (Embora o efeito analgésico possa ser obtido puncionando-se outras áreas). E foi demonstrado que, na Neuralgia pós-herpética, a sensação típica da estimulação de fibras A δ está ausente.
Esquema mostrando as conexões neurais da Ação Segmentar da Acupuntura.

Ação segmentar da Acupuntura

Ação segmentar da Acupuntura é o conjunto de mecanismos fisiológicos que ocorrem do local do estímulo com agulha até a medula espinhal. O estímulo de fibras nervosas “A δ” por agulhas de Acupuntura ativa o interneurônio inibitório, ou célula pedunculada, na lâmina II do corno posterior da medula espinhal. A célula pedunculada, com a liberação de metencefalina, bloqueia, na área conhecida como Substância Gelatinosa, a transmissão do sinal da dor conduzido pelas fibras tipo “C” para os tratos ascendentes da medula. Por outra via ascendente, o trato espinotalâmico, o estímulo da fibra “A δ” é conduzido ao Córtex cerebral, onde são interpretadas, ou “percebidas” as sensações de peso, distensão, calor ou parestesia que ocorrem durante o estímulo por acupuntura.

Ação supra-segmentar da Acupuntura

O estímulo das fibras A δ prossegue através do trato espinotalâmico até o córtex cerebral, onde é percebido conscientemente e à medida que segue neste trajeto, há colaterais para os diversos níveis da medula espinhal, com liberação de Beta-endorfina, um dos tipos de Morfina do próprio organismo, e afetando vias neurológicas descendentes que terminam por reforçar a estimulação da célula pedunculada, com efeito analgésico sobre o estímulo das fibras tipo C, e que usam o neurotransmissor Serotonina, o chamado “Hormônio do bem-estar”, o que explica bem os efeitos da Acupuntura não só no tratamento da dor, como também da depressão e dos estados de ansiedade.

Ação Central da Acupuntura

O estímulo da agulha de Acupuntura atinge áreas do encéfalo mais elevadas, como o Hipotálamo e a Hipófise, promovendo o equilíbrio do funcionamento destes centros. Como a Hipófise é uma Glândula, ocasionalmente chamada de Glândula Mãe, que coordena a função de diversas outras glândulas do corpo, o efeito da Acupuntura sobre este órgão afeta o funcionamento das Glândulas supra renais, da Tireóide, dos ovários, dos testículos, e assim tem ação terapêutica sobre a Hipertensão arterial, Dismenorréia, Tensão pré-menstrual, disfunções da Libido, e outras patologias.

Neurotransmissores na Acupuntura

Até o presente momento, sabe-se que a Acupuntura afeta a expressão e ou liberação de serotonina, e dos peptídeos opióides beta-endorfina, meta-encefalina, e dinorfina. A colecistocinina, peptídeo envolvido no processo digestivo, é antagonista da acupuntura. Considerando que a colecistocinina é estimulante da secreção ácida do estômago, temos daí a compreensão do efeito benéfico da acupuntura sobre as gastrites, úlceras e na Doença de refluxo gastroesofágico. A Naloxona, inibidor da ação de opióides, muito utilizada em Medicina antagoniza os efeitos da Acupuntura. Em dado momento, postulou-se que a ação da Acupuntura seria fruto apenas da liberação de endorfinas, entretanto, a rápida instalação da analgesia e sua duração maior que o tempo de aumento da quantidade de opióides pela Acupuntura liberados demonstra que outros mecanismos estão envolvidos.

Acupuntura e psicologia

Modalidade da acupuntura voltada para o tratamento de transtornos psicológicos e bem estar emocional. No Brasil, a resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 05/2002 reconhece a acupuntura como prática útil e eficiente ao trabalho do psicoterapeuta e permite ao psicólogo utilizar a acupuntura desde que seguindo as especificações técnicas e éticas adequadas.